A mudança de pensamento com a chegada de Johan Cruyff em 1988
“Dream Team” e o período de glória que transformou a história do time espanhol
Relação de Mestre a Aprendiz: Cruyff e Guardiola
Auge do Tiki Taka com Pep Guardiola entre 2008 e 2012
Declínio e a transformação do estilo através do tempo
Muitos acreditam que o Tiki Taka do Barcelona teve início quando Pep Guardiola assumiu pela primeira vez em 2008.
Entretanto, a semente do jogo controlado e a alta posse de bola teve forte influência do trabalho, de 1988 até 1996, feito por Johan Cruyff.
Antes de 88, o time catalão era conhecido pelo seu estilo de jogo aguerrido, forte intensidade física e vigor.
Neste artigo, vamos entender a mudança de pensamento, o auge com Guardiola e o começo do declínio em 2013.
Mudança de Mentalidade
Como já dito, antes de 1988, o Barça era conhecido pelo estilo que priorizava a garra e o físico.
O conceito de circular a bola ainda não existia e as transições rápidas eram marcas registradas.
Com a chegada de Johan Cruyff, essas ideias começaram a mudar.
“Dream Team” e glórias durante 8 anos
O desenho tático implantado por Johan Cruyff foi inspirado no “Futebol Total”, de Rinus Michels no Ajax e Holanda.
Estilo que apostava em movimentações constantes e troca de posições durante a partida.
E também em jogadores versáteis, que possuíam a capacidade tanto de atacar quanto defender.
O holandês, como jogador, foi peça fundamental desse estilo de jogo.
Por isso que quando se tornou técnico, acabou aplicando e evoluindo a forma holandesa de jogar futebol no Ajax e Barcelona.
Cruyff enxergava que o futebol deveria funcionar como um espetáculo.
E para isso funcionar, a bola precisaria ser controlada todos os 90 minutos.
“Se você tem a posse de bola, o adversário não pode marcar”, uma das frases mais icônicas da lenda futebolística.
Os principais pilares adotados no seu trabalho no clube espanhol foi a implementação do 3-4-3.
Essa formação era fundamental já que um zagueiro era retirado para a entrada de um novo atleta que povoasse o meio-campo.
Além disso, o comandante da época exigia que os jogadores formassem triângulos no campo.
Isso fazia com que existissem duas opções de passe para quem estava com a bola.
Outro fator importante foi a adoção do Goleiro-Líbero.
Essa função obrigou os goleiros a jogarem com os pés e iniciarem a construção das jogadas.
A atitude mais impressionante tomada pelo técnico foi a reformulação das categorias de base.
Cruyff determinou que, desde o infantil, todos deveriam jogar da mesma maneira.
Deste modo, todos os atletas que chegavam ao profissional já estavam familiarizados com o sistema.
Johan Cruyff foi campeão quatro vezes da La Liga e uma vez da Champions League.
Além da Copa do Rei (1), Recopa Europeia (1), Supercopa da UEFA (1) e Supercopa da Espanha (3).
Mestre e o Aprendiz
Se houve alguém que aprendeu inúmeros ensinamentos com Cruyff, esse alguém foi Pep Guardiola.
Na época, ele foi volante e homem de confiança do holandês.
A inteligência de Pep e a forma como o espanhol escaneava o campo para controlar o ritmo da bola e do jogo, eram coisas que Johan valorizava demais.
Guardiola era o 4 do “Dream Team”, a extensão da voz e conhecimento de Cruyff.
Dentro das partidas, o jogador era responsável por organizar seus companheiros.
O treinador holandês costumava dizer em entrevistas que o volante era o único que fazia perguntas complexas sobre a tática da equipe.
Sucesso Inicial
Pep Guardiola iniciou sua trajetória como treinador em 2007, no Barcelona B.
No período, o time estava na quarta divisão espanhola.
Naquele contexto, o jovem comandante teve que enfrentar os piores cenários possíveis como: gramados ruins e times ultra-defensivos.
No entanto, o resultado foi surpreendente.
Pep foi campeão, exemplificando que seu estilo inspirado em Cruyff poderia funcionar mesmo em situações precárias de jogo.
Auge do Tiki Taka no Barcelona (2008 – 2012)
Ao chegar no time principal, os resultados foram os melhores possíveis.
O Barcelona usava o famoso Tiki Taka como uma forma funcional de ataque e defesa preventiva.
O primeiro pilar do sistema construído por Pep era a superioridade numérica.
Era de extrema necessidade sempre haver um jogador livre em qualquer setor do campo.
A presença de inúmeros jogadores qualificados também ajudou o sistema.
Porém, o coração do time era o trio formado por Busquets, Xavi e Iniesta, no meio campo.
Eles controlavam a intensidade e a organização da equipe.
Além, óbvio, da estrela de Lionel Messi que brilhou de forma intensa nestes anos.
Uma atitude coletiva importante feita pelos comandados de Guardiola era a pressão pós-perda.
Como a equipe já ficava compacta no setor ofensivo, ficava fácil para os jogadores realizarem essa função de rápida recuperação da bola.
Na temporada 2010/11, muitos acreditam que foi a melhor temporada do time.
Isso porque ganhou a Liga dos Campeões de forma absoluta contra o Manchester United.
Sir Alex Ferguson, treinador do United na época, admitiu: “Ninguém nos deu uma surra dessas. Eles te deixam tonto com os passes.”
Outro resultado marcante foi a goleada de 5×0 no Real Madrid, na La Liga.
Esse jogo se transformou em um dos maiores jogos do clássico.
E claro, Messi assumindo a função de falso-9.
A lenda argentina deixou de ser ponta para se tornar o centro do time, baixando até o meio-campo para criar um losango.
Dessa forma, os zagueiros adversários não sabiam como marcar.
O Barcelona de Guardiola conquistou 14 de 19 títulos disputados (incluindo 2 Champions e 3 La Ligas).
Uma curiosidade importante é que o time nunca teve menos posse de bola que um adversário em 247 jogos consecutivos.
A saída de Guardiola e o declínio do Tiki Taka
Em abril de 2012, o treinador espanhol anunciou que não renovaria com o clube catalão.
A decisão veio quando o comandante estava se sentindo exausto de comandar a equipe.
Além disso, o relacionamento com os jogadores não era o mesmo de antes.
A intensidade também foi outro motivo importante, os atletas já não possuíam a mesma vontade e garra do início do trabalho em 2008.
É importante destacar que muitos clubes já sabiam a forma do Barça jogar.
Isso levou vários times a desenvolverem antídotos contra o jogo de posse do Barcelona.
Times que jogavam de forma muito recuada e que aproveitavam contra-ataques criaram muitas dificuldades para os espanhóis.
O melhor exemplo disso foi o Real Madrid de José Mourinho.
Ao fim da temporada, dois novos nomes chegaram ao Barcelona, o auxiliar de Pep, Tito Vilanova, em 2012/13, e Tata Martino, em 2013/14.
O Tiki-Taka como identidade absoluta do Barça sofreu seu golpe final na semifinal da Champions de 2013.
O Bayern atropelou com o placar agregado de 7-0.
O Barcelona só voltou ao topo da Europa em 2015 com Luis Enrique.
Entretanto, o estilo mudou, o Tiki-Taka puramente em sua essência deu espaço para o trio MSN (Messi, Suárez, Neymar).
Sendo na época, um time mais direto e baseado no contra-ataque rápido.
Distanciando-se das ideias de Cruyff e Guardiola.
Final
O declínio do Tiki-Taka em 2013 não significou o seu desaparecimento, mas sim a sua transformação através do tempo.
O Barcelona de Guardiola e a iniciação de Cruyff provaram que o controle do espaço através da posse foi uma das formas mais eficazes de dominar o campo.
O DNA deixado por essa era continua vivo em cada equipe que prioriza a construção desde a defesa.
O legado do Tiki-Taka é a prova eterna de que, no futebol, a bola sempre correrá mais rápido do que qualquer jogador.

