A Instituição do Camisa 10: O Arquiteto do Jogo
De Pelé a Zico: A Construção do Mito e o Padrão Ouro
O Choque Tático: Por que o Tempo e o Espaço Sumiram?
A Engrenagem da Base: O Talento Moldado pela Exportação
Os Últimos 10: Entre o Anacronismo e a Adaptação
O camisa 10 no futebol brasileiro sempre foi muito mais que apenas um número.
É um legado e representação de primor técnico.
Entretanto, nos dias atuais, temos uma precarização desta posição no nosso esporte.
Antigamente, quase todo camisa 10 era a peça central de um clube.
O jogador que assumia esse número era o atleta que possuía a maior capacidade de liderar e organizar o time.
Vamos tentar entender quais foram os motivos que contribuíram para a diminuição dos “maestros” no Brasil.
A função e a importância do 10
Se olharmos para o futebol de antigamente podemos encontrar uma lista grande e variada de atletas que marcaram o esporte com a camisa 10.
Geralmente, o 10 se encontrava como o meia-armador da equipe.
Ele ficava posicionado entre os volantes e os zagueiros adversários.
A função era de encontrar os companheiros melhores posicionados para concluir a jogada.
Mas não se engane, ele também decidia partidas.
A referência para chutes de longa distância, cobranças de falta e dribles desconcertantes também era do 10.
Ao contrário de hoje, esses jogadores não precisavam voltar para marcar.
A obrigação deles era transbordar seu brilho e técnica.
O time jogava em função desse cara.
No nosso país, temos grandes exemplos de atletas que dominaram a posição.
Pelé, o maior de todos os tempos!
É impossível não falar do maior jogador que já existiu no planeta, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.
Se a discussão é sobre camisa 10, é quase que um pecado futebolístico não comentar a influência deste atleta para a história do futebol mundial e para esse número.
Inclusive, a atribuição de Pelé com a 10 foi um acaso.
Na copa de 1958, a CBD, antiga CBF, enviou a lista de atletas sem a numeração.
Por isso, a FIFA teve que, de forma aleatória, enumerar os jogadores.
E então, o jovem de 17 anos acabou recebendo a camisa 10 da seleção brasileira.
Após encantar o mundo com o título mundial, ele batizou o número.
A partir deste momento, o melhor jogador de qualquer time deveria carregar o peso da 10.
Vamos falar de números: Pelé fez 1.283 gols em 1.363 jogos.
Pelo Santos FC: 1.091 gols em 1.116 jogos.
Pela Seleção Brasileira: 95 gols no total (77 em jogos oficiais da FIFA).
E por fim, Pelo New York Cosmos: 64 gols em 107 jogos.
Ele foi o único jogador a conquistar três copas do mundo.
Além de conquistar inúmeros títulos em território nacional.
Figuras que também foram os verdadeiros “maestros”
Outros nomes também ficaram marcados como referência na posição.
Zico foi um deles.
O gênio do Mengão marcou inúmeras gerações com o seu estilo de jogo.
Muitos acreditam que ele é a representação perfeita do 10.
O armador que unia visão de jogo com o faro de gol de um raro centroavante.
As suas características eram únicas.
Ele tinha o passe que desestruturava qualquer marcação ou linha defensiva.
Zico também infiltrava-se constantemente na área.
Ele aparecia como um “elemento surpresa”, o que explica sua alta média de gols.
Além, claro, de suas cobranças de faltas.
Talvez seja a maior característica do Galinho, um dos maiores especialistas em bola parada da história.
Tivemos outros exemplos na história do nosso futebol como: Rivellino, Sócrates, Rivaldo, Raí, Ronaldinho Gaúcho, Alex, entre outros.
Todos esses merecem parágrafos inteiros sobre suas histórias.
No entanto, esse artigo não teria fim.
Futebol moderno como o causador da extinção?
A diminuição do 10 no futebol não é um acidente.
Mas sim uma transformação tática, física e estilo dos times e treinadores.
Os jogadores dessa posição precisam de espaço e tempo.
Porém, esses dois elementos se tornaram quase que escassos nos dias atuais.
No futebol antigo, os times jogavam de forma espalhada.
Isso gerava maior espaço e tempo para que a criatividade destes atletas aflorasse.
Hoje em dia, as equipes jogam muito compactas.
A linha de defesa com o meio campo fica estreita demais.
Obrigando uma ação extremamente rápida dos jogadores.
O 10 não tem mais o momento de pausa para dominar, girar e pensar.
Se ele parar na zona central, será imediatamente cercado por dois ou três marcadores.
Outra questão importante a se discutir é a supervalorização da intensidade física sobre a técnica.
Como já dito, antigamente o 10 não tinha obrigação de voltar para marcar.
Mas no futebol atual, isso é visto quase como um suicídio.
Os treinadores preferem o meia que corra 12 km por jogo, feche linhas de passe e chegue à área.
Como eles jogam atualmente?
Já que muitas das vezes o centro fica congestionado, a opção é recorrer para as laterais ou início da jogada.
O 10 atual tenta se movimentar em todo o campo.
Nas laterais, ele tenta se associar com os pontas e laterais para criar superioridade numérica.
Ou correm para o início da jogada, como volantes, para criarem e terem melhor visão de jogo.
Além disso, eles são obrigados a formar a compactação defensiva.
Intensidade de marcar e acompanhar as jogadas tanto no ataque, quanto na defesa.
Defasagem na base
E a nova frota de jogadores?
Por quê surgem tão poucos?
Bom, debater esse tema é complexo.
Não é que os talentos diminuíram, mas sim houve uma modificação na linha de pensamento da formação desses atletas.
A base já prepara os jovens para a rápida adaptação ao futebol moderno.
O menino que tiver as características clássicas do 10, mas for considerado franzino ou lento, infelizmente, será barrado.
Além disso, o pensamento europeu do “jogo de posição” dominou as academias brasileiras.
Nos tempos atuais, o garoto é pressionado ao estilo dos dois toques.
Nele, o domínio já deve direcionar a jogada para o passe rapidamente. Como consequência, o jogador cresce com medo de errar o passe ou demorar demais.
Dessa forma, acaba perdendo a audácia de tentar passes verticais que quebram linhas.
Outro fator importante é a precoce exportação desses jogadores para a Europa.
Há muito tempo, o Brasil é um grande exportador de jóias para o continente europeu.
E eles sempre buscam nomes que possuam rapidez e estilo rápido de adaptação.
O estilo brasileiro criativo e diferente dos demais acaba se perdendo no meio dessas situações.
O anacronismo vivo e outros 10 atuais
Uma pessoa anacrônica é aquela que age ou toma atitudes que não correspondem à sua época.
No futebol brasileiro, a melhor representação de anacronismo é Paulo Henrique Ganso.
O meia das Laranjeiras apresenta as características clássicas do camisa 10.
E talvez seja um dos últimos representantes dessa escola de jogo.
Ganso é o exemplo atual de que nem sempre o jogador precisa correr em todo o campo.
Seus passes, e em especial, sua mentalidade, contribuem para o futebol idealizado pelos gênios do passado.
Por mais que esteja caminhando para o final da carreira nos próximos anos, sua contribuição foi gigante.
Outros jogadores também apresentam resquícios do passado.
Nomes como Éverton Ribeiro, Matheus Pereira e Alan Patrick ainda apresentam o refino técnico de seus times.
A maior referência que temos atualmente é Neymar.
O camisa 10 do Santos, Seleção e PSG, adaptou sua forma de jogar.
Quando surgiu, ele ficou conhecido pelos seus dribles e velocidade nas pontas.
Mas ao longo do tempo, com o passar da idade, Neymar passou da ponta para o meio.
Atuando como um construtor de jogadas.
Muitos torcedores têm nele a maior esperança de título na copa deste ano.

