A Itália é uma das maiores potências da história do futebol, sendo tetracampeã mundial, atrás apenas do Brasil.
Fora das últimas duas Copas, caiu na repescagem de 2017 para a Suécia e de 2022 para a Macedônia do Norte.
O que antes era uma seleção temida por qualquer adversário, tornou-se hoje uma equipe com pouca credibilidade.
Conquistou a Eurocopa em 2021 ao vencer a Inglaterra na final por 3 a 2 nos pênaltis.
Nas eliminatórias atuais, a equipe chegou ao fundo do poço ao sofrer duas goleadas para a Noruega.
O PREÇO DA ESTAGNAÇÃO
A decadência italiana não vem de hoje, mas é fruto de uma estagnação de décadas.
O ponto de partida para essa crise, que foi se formando aos poucos, partiu em grande parte da Copa do Mundo de 1990.
Sediada na própria Itália, o país teve uma excelente oportunidade para modernizar sua infraestrutura e criar um projeto sólido.
Enquanto outras potências europeias aproveitavam seus torneios para reformar o sistema, a Itália tomou decisões trágicas.
Como a decisão de construir o Estádio Delle Alpi, que tinha muitos problemas estruturais e causou sua demolição em 2009.
Houve também o Estádio San Nicola, feito em um lugar isolado e com capacidade exagerada para a realidade local.
Com quase 60 mil pessoas de capacidade, o estádio foi destinado a um time que frequentava a série B na época.
Ignoraram a melhoria dos estádios principais e a criação de centros de treinamento modernos.
Muitos dos estádios que vemos hoje na Serie A ainda carregam a estrutura ultrapassada e precária daquela década de 90.
A falta de organização administrativa e da visão de negócios fez com que o futebol italiano parasse no tempo bruscamente.
Enquanto a Inglaterra criava a Premier League e a Alemanha reformulava sua base, a Itália se acomodava em sua tradição.
Essa ausência de um projeto de reestruturação técnica e física, até hoje, é a raiz de todos os problemas que vemos.
APAGÃO DE TALENTOS E A CRISE DE IDENTIDADE
O sucesso histórico da Itália sempre foi sustentado pela capacidade de produzir defensores implacáveis e maestros geniais.
Houve um tempo em que a Azzurra se dava o luxo de escolher camisas 10 do calibre de Roberto Baggio e Del Piero.
Somava-se a eles o talento de Francesco Totti, criando uma identidade clara de um time que sabia sofrer defensivamente.
Esse nível de qualidade criava uma equipe que decidia a partida com um toque de gênio após suportar a pressão adversária.
Porém, com o passar do tempo, essa fábrica de talentos parou de produzir peças de reposição à altura do passado glorioso.
A conquista do tetracampeonato em 2006 foi o último brilho de uma geração de ouro que dominou o cenário mundial.
Por trás daquela conquista estava escondido um problema de sucessão silencioso e perigoso que a federação não quis enxergar.
O time era composto por veteranos ícones como Fabio Cannavaro, Alessandro Nesta e o mestre estrategista Andrea Pirlo.
Eram os pilares de uma estrutura sem herdeiros prontos para assumir o protagonismo.
Isso fez com que os heróis de Berlim se aposentassem, sobrando um grande vazio técnico e de liderança na equipe nacional.
Sem renovação, os grandes clubes italianos focaram no mercado externo em busca de atletas prontos.
Um marco simbólico desse desinteresse pelo talento local foi a Inter de Milão campeã da Champions League em 2010.
Naquela final histórica, o clube não escalou nenhum italiano titular, evidenciando o abandono total das categorias de base nacionais.
Buscar estrangeiros medianos em vez de lapidar a base nacional corroeu a seleção principal.
A falta de valorização faz com que hoje os talentos locais raramente encontrem espaço para amadurecer nos grandes palcos da liga.
Sem minutos, os jovens perdem o tempo de maturação e são superados por rivais estrangeiros.
Isso gera uma seleção sem peças de reposição para manter o nível exigido em grandes torneios.
O VEXAME DAS ELIMINAÇÕES
Após conquistar o mundo em 2006, o futebol italiano mergulhou em uma sequência de fracassos que pareciam ser inacreditáveis.
O que parecia ser apenas uma fase comum de transição se transformou em uma crise que tirou a Itália do mapa por anos.
Nas edições das Copas de 2010 e 2014, a Azzurra foi eliminada precocemente ainda na fase de grupos da maior competição.
Essas eliminações ocorreram em chaves consideradas fáceis, o que concretizou de vez o declínio técnico do elenco nacional italiano.
Porém, o verdadeiro fundo do poço foi atingido em 2017, após a trágica derrota para a Suécia na repescagem para a Rússia.
Pela primeira vez em 60 anos de história, a tetracampeã mundial assistiria a uma Copa do Mundo apenas pela televisão, de casa.
A ausência na Rússia foi vista como erro de percurso, mas o pesadelo estava apenas começando.
FALSAS ILUSÕES
A conquista da Eurocopa em 2021, vencendo a Inglaterra em pleno Wembley, foi vista como uma luz no fim do túnel.
O título apenas mascarou problemas graves e sem solução na federação e nos clubes locais.
A euforia com a taça europeia impediu que se fizessem as mudanças estruturais que o país tanto precisava na época de crise.
O castigo por essa cegueira administrativa não demorou a chegar para os italianos logo no ciclo seguinte de jogos importantes.
No ano seguinte ao título, a Itália falhou novamente em se classificar para a Copa do Mundo do Catar no ano de 2022.
A derrota em casa para a Macedônia do Norte, com um gol sofrido nos acréscimos, foi o capítulo mais humilhante de todos.
O roteiro de horror parece se repetir agora, com a seleção dependendo de repescagens e resultados de terceiros para poder sobreviver.
Nas eliminatórias atuais, o time sofreu goleadas pesadas para a Noruega, expondo a fragilidade técnica de todo o elenco nacional.
Enquanto seleções menores como Panamá e Islândia estiveram em Copas recentes, a Itália luta para não ser mera figurante definitiva.
A Itália precisa decidir se vive de lampejos ou encara a reforma profunda que o campo exige.

