ISSO É BRASIL NA COPA E BRASILEIRO NA CORNETA

“A Seleção Brasileira nem é lá essas coisas mais. Já era. Não bota medo em mais ninguém”.

Querendo ou não, todos nós tivemos nossas boas doses de leitura ou audição nos mais variados veículos de imprensa.

“Timinho fraco”.

“O pior da história”.

“É o fim da Pentacampeã”.

Uma miríade humilhante e condenatória de falas, textos, vídeos, notas, memes e recortes, que força a introspecção do torcedor brasileiro, que constrange o orgulho que outrora escolhemos tomar em nossos corações.

Essa é a Copa do Mundo de 2026 para os miscigenados de cultura e etnia da América do Sul, da República Federativa do Brasil.

Não temos um dia de paz.

Vencemos, mas pagamos.

E esse pagamento tem cobrado juros altíssimos nas lacunas duma honra que andamos custando preencher.

Na prática, os dados são: 48 seleções participantes; 12 grupos de 4 equipes.

Em retrospecção, comparando com os eventos anteriores, definitivamente o maior campeonato internacional da história da humanidade, superando até as consagradas Olimpíadas.

México, Canadá e Estados Unidos da América sediando, em uníssono, colaborativamente, seus burgos, seus estádios, suas ruas, seu comércio e encantos.

Tem concentração cá, tem treino acolá, hordas de patriotas vestindo as fardas de seus respectivos países, vuvuzelas aos açoites dos sopros, cornetas injuriando ouvidos e gritos de guerra cantados entre becos e vielas, avenidas e rodovias, estradas e aeroportos.

Os espectadores, tanto presenciais quanto domésticos, à espera dos milagres em campo, do futebol-arte, da expressão massacrante; a sensação de 1994 e 2002.

Querem as lendas se repetindo, o fruto do empenho sendo reproduzido mais uma vez.

Foi assim em 2006 de Roberto Carlos se abaixando para amarrar o cadarço na barreira.

Foi assim em 2010 da derrota para os Países Baixos, a Holanda Laranja Mecânica.

Foi assim em 2014 do 7 a 1.

2018, na eliminação para a Seleção Belga.

E a última, a de 2022, contra uma Croácia que subestimamos até passarmos pela prorrogação e perdermos nos pênaltis.

Querem porque querem que o Brasil vença, vença e vença.

Querem porque querem que todas as etapas sejam fáceis, decididas num pá-pum de meio-campo, corrida pela lateral, chute no gol e caixa.

Existe apenas um porém nessa defasada equação: o problema é justamente esse.

Enquanto o corneteiro vira-lata não compreender que compactuar com a seleção é respeitar o seu tempo e motivar até os últimos segundos dos acréscimos os jogadores que estão vestindo a camisa verde e amarela, então o avanço não vai chegar nem em dez Copas do Mundo futuras.

A memória tem sido esquecida.

A desconfiança tem feito a compreensão média ser menos do que deveria.

“Se fosse no tempo de Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Bebeto, isso não estaria acontecendo, não.

Perdemos a qualidade.”

Já que é assim, permita-se a um refresco às lembranças: a nostalgia popular, sempre afeita ao douramento dos próprios mitos, esquece que 1994 e 2002 também tiveram seus desfiladeiros.

O tetra precisou sobreviver a placares magros, expulsões, empate holandês e uma final sem gols decidida nos pênaltis.

O penta, por sua vez, conheceu a aspereza turca duas vezes e sofreu contra uma Bélgica que, por longos minutos, fez o Brasil lembrar que se não tiver raça e não souber mostrar respeito ao adversário, não adianta, vai levar, vai ser feito de bobo e vai voltar para casa com uma mão na frente e outra atrás.

O que sugere este relato é o seguinte: vencer uma Copa nunca significou sair pisando nos oponentes e arrebanhá-los como ovelhas sem discernimento.

Até as campanhas que hoje tratamos como inevitáveis requerem nervo de aço, sufoco e risco.

A diferença é que, quando o Brasil vence, a memória transforma as dificuldades em uma epopeia mágica; quando perde, ferrou, é “pernas pra que te quero” e mil palavrões amargurados àqueles que foram, vestiram o manto e tentaram o impossível para trazer o que o povo mais anseia.

Por isso, deixe de ser zé ruela e torça, confie, grite, esperneie, queira.

Tanto faz se o empate com o Marrocos “não era para acontecer”.

Não é sobre o “Japão ser inferior e passarmos sufoco”.

O laudo necessário é atestar potencial apesar da complexidade que desponta dentro das quatro linhas.

Porque Copa do Mundo é o balaco e a energia suscitada para deliberar fé na vitória é o baco.

O brasileiro precisa reaprender essa paciência: a de entender o custoso domínio que não garante tranquilidade, e que a grandeza do coletivo tende a surgir nas circunstâncias mais inesperadamente incomuns e desfavoráveis.

É esse o futebol, afinal de contas: uma caixinha de surpresas.

Rolar para cima