A poucos dias do apagão das apostas, os clubes brasileiros já calculam os possíveis prejuízos.
A Medida Provisória assinada pelo presidente Lula na sexta-feira (25) prevê a retirada do ar das casas de apostas e dos cassinos online a partir de 6 de outubro.
A medida ameaça diretamente um dos principais pilares financeiros do esporte mais popular do país.
O que muda a partir de agora

A MP proíbe a operação das chamadas bets em território nacional.
Novos depósitos já estão vetados, enquanto os apostadores podem sacar o saldo das plataformas até as 23h59 do dia 5 de outubro.
Após esse prazo, sites e aplicativos deverão ser bloqueados.
A publicidade também entrou na mira da medida.
Novos patrocínios estão proibidos, enquanto os contratos que já estão em vigor poderão ser mantidos apenas até 5 de outubro.
Em caso de descumprimento, as punições previstas podem chegar a seis anos de prisão.
Um mercado que virou dependência

Legalizadas em 2018, as apostas esportivas rapidamente ganharam espaço no futebol brasileiro.
As marcas passaram a ocupar camisas, placas de publicidade e até transmissões das partidas.
Atualmente, 14 dos 20 clubes da Série A possuem acordos com empresas do setor.
Os contratos previstos para 2026 somam cerca de R$ 910 milhões.
Segundo a consultoria Sports Value, os clubes brasileiros receberam quase R$ 1 bilhão em patrocínios de bets no ano passado.
O ranking dos clubes mais prejudicados
Em valores absolutos, veja quanto cada clube recebeu de patrocínios de bets em 2025, de acordo com a Sports Value:
- 1. Flamengo: R$ 269 milhões (Betano)
- 2. Corinthians: R$ 150 milhões (Esportes da Sorte)
- 3. São Paulo: R$ 113 milhões (Superbet)
- 4. Palmeiras: R$ 100 milhões
- 5. Santos: R$ 70 milhões
- 6. Botafogo: R$ 55 milhões
- 7. Fluminense: R$ 52 milhões
- 8. Vasco: R$ 50 milhões
- 9. Cruzeiro: R$ 40 milhões
- 10. Atlético-MG: R$ 40 milhões (H2bet)
- 11. Red Bull Bragantino: R$ 31 milhões
O Flamengo lidera com folga e é o clube mais exposto em cifras. O rubro-negro recebeu quase o dobro do segundo colocado, o Corinthians.
Quem sente mais o golpe

Valor absoluto não conta toda a história.
O que pesa, na verdade, é quanto do orçamento de marketing de cada clube dependia das apostas.
No São Paulo, o patrocínio da Superbet respondeu por 73% da receita de marketing no ano passado.
No Atlético-MG, o contrato com a H2bet representou 69% da receita do setor.
Nesses casos, o corte no meio da temporada deixa um buraco difícil de tapar.
Bilheteria, direitos de transmissão e licenciamentos ajudam, mas dificilmente conseguem substituir, em poucos dias, cifras dessa grandeza.
Clubes reagem e a tensão cresce

O clima é de confronto.
Dirigentes falam em rombos nos planejamentos, enquanto o presidente do Flamengo criticou o corte abrupto de receita com o campeonato em andamento.
Também existem ameaças de paralisação do Brasileirão e de recurso ao STF.
Os clubes chegaram até a discutir um possível boicote a uma reunião com o presidente para tratar do tema.
Enquanto isso, o poder público tenta amenizar os efeitos da medida.
O governo de Minas Gerais anunciou R$ 30 milhões em ajuda para Atlético-MG e Cruzeiro.
Já o governo federal sinalizou programas de renegociação de dívidas para famílias afetadas pelo vício em jogos.
Esse é um dos principais argumentos utilizados por quem defende a proibição das apostas.
E agora?

O país entra em uma disputa entre saúde pública e economia do esporte.
De um lado, o governo argumenta que é preciso conter os danos sociais provocados pelo jogo.
Do outro, os clubes alertam para o risco de desequilíbrio nas contas e para o impacto na competitividade do campeonato.
Nos próximos dias, três frentes devem definir os próximos passos: a resposta jurídica dos clubes, uma eventual análise da MP pelo Congresso e a busca por novos patrocinadores.
Uma coisa é certa: quando a bola rolar depois de 6 de outubro, muitas camisas do Brasileirão estarão diferentes.
E muitos cofres, mais vazios.
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